segunda-feira, 21 de setembro de 2015

Servidão voluntária: o olhar de Bauman e Huxley sobre a sociedade de consumo


Saramago já nos advertia que estamos cegos da razão. Talvez seja o nosso ego, sempre inflado e se achando o dono do pedaço. Talvez seja pela nossa incessante incapacidade para amar. Podemos dizer que essa cegueira se alastre em função da facilidade. É sempre mais fácil andar sem olhar para o lado. Sem olhar para nós mesmos. Sem olhar para o que somos ou nos tornamos.

Cegos que somos, seguimos a doutrina da sociedade de consumo. Condicionados como bons soldados, não recusamos a missão de esvaziar um Shopping Center. Aprendemos desde cedo, que como partes do todo, devemos manter a ordem e, assim, não devemos transgredir as leis de ouro que tornam a sociedade contemporânea um reino de “felicidade”.

O sistema hegemônico, através da mídia, não nos deixa esquecer a importância de manter o sistema funcionando harmonicamente, e de como bom senhor, devemos-lhes obediência e servidão. Servidão esta, construída por meio de chicotes ou força física? Não. Ora, se somos seres desejantes, então, nada melhor do que usar a mídia para nos seduzir.

Somos seduzidos pela promessa de felicidade escondida atrás do consumismo. Somos tentados por todos os sorrisos espalhados nas propagandas. Somos condicionados a acreditar que a felicidade só é possível se e, se somente se, tenho condições de participar da orgia do consumo.

Sendo assim, somos ludibriados por um sistema que nos entorpece e nos torna míopes que só enxergam a realidade pelos óculos que lhes são oferecidos. Tornamos-nos, dessa forma, servos voluntários do sistema, pois embora livres, nos permitimos condicionar e obedecê-lo. Sem espaço para a crítica ou autorreflexão, somos apenas reprodutores de uma cultura aprisionadora que qualifica como tolice qualquer prazer fora do consumo.
“Imaginem que tolice, permitir que as pessoas se dedicassem a jogos complicados que não contribuíam em nada para o consumo. Atualmente, os Administradores não aprovam nenhum jogo novo, salvo se, se demonstrar que ele necessita, pelo menos, de tantos acessórios quanto o mais complicado dos jogos existentes.”
A felicidade, portanto, deve ser comprada, aliás, somente existe se for comprada. Não há espaço para as coisas simples, para o que é “gratuito”, para que possamos ser felizes e ter prazer, precisamos inexoravelmente consumir. Essa é a servidão voluntária através do consumo, não pela violência ou coerção, mas pela sedução e erotismo produzido nas relações de consumo.

Devidamente seduzidos pelo mercado, não conseguimos sair das suas entranhas. Não precisamos. Tudo é mercadoria. Ouvimos o tempo inteiro a voz do mercado, com seus alto-falantes que denunciam qualquer ato de “tolice” e nos lembram incessantemente a necessidade vital de consumir, pois como bem atenta Huxley:
 “Sessenta e duas mil repetições fazem uma verdade.”
Todos esses mecanismos de controle social escondem um autoritarismo com o qual nos acostumamos e aceitamos, pela indisposição em ser mais que um pacote de biscoitos e um par de sapatos. Preferimos estar cegos e condicionados que se opor ao sistema. Estamos, assim, mais que cegos da razão, estamos, como diz Bauman, em uma cegueira moral.

Somos subservientes a um sistema que racionaliza as emoções e que transforma a vida em uma longa linha de produção, de modo que não existe outro caminho a uma vida prazerosa sem passar por ela. Somos cegos admirando os caminhos líquidos de um mundo novo.

O admiramos, pois fomos seduzidos pelo encanto e enlace erótico de um mundo que me permite ser um novo a cada dia, em que não se precisa de laços e que, portanto, cada um é um fim em si mesmo. Somos servos voluntários, pois nós mesmos nos fazemos dominar. Entretanto, esquecemos que esse sistema hegemônico através da sedução que nos domina, mantém o status quo de opressão e escravidão.

Como diz Bauman: “A vida desejada tende a ser a vida vista na TV”. Mas, a vida vai além de padrões de comportamento, de cartilhas, senhas e números. Vai além de escravidão e dominação. Vai além de reproduzir as verdades da mídia. Vai além de um cartão sem limites. Vai além de algumas polegadas. Ainda que para enxergar esse além, seja preciso coragem para sair do cinema e visitar a própria vida.

26 comentários:

  1. Pois... uma homenagem ao Huxley do Admirável Mundo Novo, e na verdade criámos uma sociedade que se está a tornar numa ditadura do consumo... a felicidade está em consumir, até o equilíbrio da própria sociedade estourar.

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    1. Verdade Carlos, infelizmente por trás de uma aparente "liberdade" existe uma ditadura que maquiniza toda a vida.

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    2. Parabéns Erick! Muito bem colocada a cegueira de Saramago, não nos vemos mais, não vemos o mundo,não vemos o OUTRO.Nos templos de consumo ficamos fascinados pelos últimos lançamentos, seja o vestido, o sapato ou o eletronico carissimo que durará semanas. Felizmente nos encantamos com qualquer novidade gastronômica, que irá nos tornar obesos, cheios de doenças e, finalmente teremos o fim dessa triste experiência divina que é o ser humano!!!

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    3. Obrigado! Todos esses aparatos tornaram a vida mais chata e burocrática, além de criar um exército de indivíduos iguais, isto é, tirando toda a graça da vida. Para os que gostam, parabéns. Prefiro o meu mundo.
      Abraços!

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    4. A liquidez humana disfarçada de pseudofelicidade. Muito bom!

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    5. Obrigado Diogo! Pois é, o pior é que a maioria acredita.

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  2. Aplausos pra você...excelente texto!
    Pena que a maioria das pessoas não enxergam isso. Uma sociedade zumbi que se preenche correndo atrás do ultimo lançamento, da tendencia da moda...aceitando a criação de "necessidades" de um capitalismo selvagem.

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    1. Muito obrigado Elaine! Infelizmente caminhamos para o abismo e sequer nos damos conta ou não queremos nos dar. Triste realidade.
      Abraços!

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    2. É bom encontrar gente que está desperta para a realidade. É impressionante o condicionamento generalizado. Há um filme interessante sobre esta questão. No filme, haveria uma raça de extraterrestres no nosso planeta, que iludiria a maioria das pessoas com mensagens subliminares, que só podiam ser vistas com um tipo especial de óculos. Gostei do filme, apesar da qualidade do roteiro. Está um pouco relacionado ao dito em Admirável Mundo Novo e em Matrix. Ótimo texto.

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    3. Olá! A cada postagem fico mais feliz por saber que ainda existem pessoas que estão tentando pensar fora da caixinha. Existem vários filmes que de algum modo se ligam ao Admirável Mundo Novo do Huxley. O filme a que se refere é "Eles Vivem", ainda não assisti, mas fiquei curioso, vou buscá-lo. Obrigado pelo carinho e pela indicação.
      Abraços!

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  4. Admirável mundo novo; matrix; ensaio sobre a cegueira; vida para o consumo... Estava tudo aí. As vezes a solidão é imensa. É bom lembrar (saber) que tem mais gente viva no planeta. Que alívio!

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    1. Sim, está tudo no texto e na vida, embora, a maior parte das pessoas não veja. É muito bom saber que ainda há esperança de vida no planeta minha cara.
      Abraços Gabi!

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  5. Que texto maravilhoso. Muito bom. Gostei. Não tenho base para discutir, mas já posso me sentir maravilhado de ler e adicionar um pouco mais de visão ao meu olhar que pretende, um dia, atingir um nível crítico.

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    1. Muito obrigado Kleyton! A tua fome pelo conhecimento já é o mais crítico e intelectual que um homem pode ter.
      Abraços!

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  6. Quando digo que me encontro satisfeita com os bens materiais que tenho, todos ficam desconfiados. Eu julgo não precisar de mais. Tenho o que preciso para me deslocar e viver. Até para comprar um carro foi assim, tenho que pensar nos Km que faço e não no visual, nos grandes motores e novidade.... Há uma pegada ambiental nos gestos diários e só por isso vale bem a pena pensar 2 x antes de comprar...Ter não é sinónimo de viver.
    Sou feliz por viver num pais onde há aproveitamento de recursos e materiais em segunda mão. Mas mais que uma perspectiva económica, ficaria muito feliz de ver a dimensão humana em primeiro lugar. Essa Erick ainda está longe. E a solidão que o consumismo embarca...o vazio... Somos humanos jamais iremos alcançar algo quando tudo e é descartável. Jamais os nossos sentidos foram feitos para viver nesta velocidade desenfreada.
    Um texto com muitas possibilidades de reflexão e que faz falta nos nossos jornais. Grata por lê-lo, Ju

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    1. Muito obrigado Ju! Infelizmente, ainda está muito distante, espero que algum dia possamos nos dar conta de que até aqui caminhamos de forma errada.
      Abraços!

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  9. E ainda pior ou consequência dessa evidência é a engrenagem que nos prendeu numa teia alienável e corruptível enorme de uma sociedade toda voltada para a competitividade, o "sucesso",para efêmera fama, os padrões mutáveis da beleza e a pela obsessão pelas cotações das Ações, cuja valorização arrasta tudo à passagem...Ambiente, Ética,a Paz, Direitos humanos, Qualidade de vida,...tudo adiável à satisfação dos "Acionistas". E disso não há fuga possível. não há uma ilha livre de Burocracia, de "documentos" de dinheiro, de vigilância e de violência...Esse Planeta desgastado é esférico e por isso para onde formos vamos parar no mesmo lugar....

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    1. Verdade Fernando, o seu comentário me remeteu ao filme "Brazil" do Terry Gilliam, onde é apresentada uma conjuntura bem próxima da que você expressou.
      Abraços!

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  11. Compactuo com a visão de vocês

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  12. Pois é. Vivemos uma era onde tudo se torna instável, onde valores como família, amigos, respeito, segurança, emprego, equilíbrio emocional e etc, estão se liquefazendo,como no conceito de modernidade fluída de Baumman... Uma era "panela de pressão" onde o tempo todos somos cobrados para sermos o mais eficientes possível, onde separam o mundo em "vencedores" e "fracassados". Consumimos desenfreadamente visando ocupar o tremendo vazio que os dias de hoje nos faz sentir. O mundo moderno e a tecnologia tem suas vantagens, mas ao mesmo tempo virou um "mundo cão" que tornou as pessoas endurecidas. Na busca de uma identidade própria somos sufocados pela ideologia do consumo e da massificação dos gostos, tendências e opiniões nos tornamos uma "multidão de ninguéns".

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    1. Exatamente, como lembra o próprio Bauman: "Vivemos em uma multidão e numa solidão ao mesmo tempo". Tristes tempos.

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