segunda-feira, 19 de outubro de 2015

Servidão Voluntária por Etienne de La Boétie


O novo sempre causa suspeita, não por outro motivo, a não ser a imprevisibilidade que o novo traz. Sendo assim, há em situações desagradáveis, mas contínuas, a previsibilidade e, consequentemente, certo conforto. Por outro lado, ainda que uma situação seja boa, se for nova, desconhecida, esta gera desconforto, de modo que, na história humana, podemos observar a sua tendência, embora contrária a sua natureza, à servidão.

Na modernidade, a servidão ganha contornos distintos, pois o discurso fundador do mundo contemporâneo alicerça-se na liberdade.  Dessa forma, os indivíduos hoje deveriam ser muito mais livres do que há mais de quatrocentos anos, quando Étienne de La Boétie escreveu o magnífico "Discurso da Servidão Voluntária". No entanto, embora o gênio francês tenha alertado, parecia que este previa o desenvolvimento da servidão, paradoxalmente ao crescimento da liberdade.

Assim, o questionamento de La Boétie, encontra-se hoje, ainda mais pertinente, pois o que leva os homens, sendo livres, a abdicarem da sua liberdade em favor de um jugo? A resposta que me parece mais próxima é a incapacidade dos indivíduos gerirem a sua própria vida. Isto é, a incapacidade de lidar com as suas atitudes e suportar por si só as consequências dos seus atos.

Em outras palavras, os homens preferem alguém que os guie, que seja o seu “führer”, que determine o que devam fazer, para que assim abstenham-se da responsabilidade de serem donos das suas próprias vidas. Embora, fale-se tanto da liberdade, esta não é garantia de uma vida melhor e feliz. Liberdade, antes de tudo, pressupõe angústia, responsabilidade e vazio. E, na grande maioria das vezes, preferimos uma prisão em forma de fantasia do que encararmos de fato a vida.

A servidão voluntária, desse modo, enquadra-se em um sistema em que os próprios indivíduos tornam-se escravos. Ou seja, pelo medo de encarar-se e encarar a vida, muitos preferem ser domados e seguirem a manada. Criamos o hábito de nos domesticar perante o tirano. E, na democracia, o tirano parece ser ainda mais sedutor, sobretudo, quando desejamos ser seduzidos.
“É o povo que se escraviza, que se decapita, que, podendo escolher entre ser livre e ser escravo, se decide pela falta de liberdade e prefere o jugo, é ele que aceita o seu mal, que o procura por todos os meios.”
Há uma série de artifícios que criam uma ideia de beleza em torno da prisão que habitamos. Sejam as “panis et circenses”, feitas pela classe política, a fim de que sejamos burros selados, incapazes de olhar para o lado. Sejam as propagandas, produzidas pelo mercado, as quais criam necessidades inexistentes, e nós como bons servos, as internalizamos, a fim de adequarmo-nos ao protocolo social.

Como seres desejantes que somos, como diria Hobbes e Deleuze, não me espanta como somos manipulados, mas sim, espanta-me a forma como somos conduzidos por caminhos obscuros e estranhos ao nosso ser, ao que verdadeiramente somos. Espanta-me, como tão facilmente um pequeno número de indivíduos consegue domar-nos. Se não fosse por vontade própria, por mais espanto que isso possa causar, não seria possível a dominação de poucos por muitos.
“Tinham compreendido ser possível fazerem o que quisessem de um povo que se deixava apanhar na rede, por muito frágil que ela fosse, um povo tão fácil de enganar e submeter que quanto mais dele zombavam mais se rebaixava.”
Quando o mundo é visto como uma grande maçã, apetite do nosso desejo e fornecemos aos tiranos poder, inexoravelmente, nos submetemos ao seu bel prazer. Somos levados pelas cócegas, como se estar preso a coisas que nem sempre nos representam, fosse algo maravilhoso.

Somos responsáveis por aquilo que produzimos. Se há a servidão voluntária, então, somos nós os culpados. Se há tiranos, somos nós que os abastecemos. Se o mercado é alienante, somos nós os que anseiam pela alienação. Basta que um único se rebele, para que se torne livre.

Todavia, esse indivíduo é você. A servidão é voluntariamente mantida por cada um. Bastaria que fôssemos determinados no que somos, para que fôssemos livres. Para isso, necessita-se apenas valentia, qualidade que se perde com a falta de liberdade, em que todos, servos voluntários, escravos sem visão, caminham
“[...] para o castigo como que manietadas e entorpecidas, como quem vai cumprir uma obrigação.”

7 comentários:

  1. Alguns esteriótipos como a liberdade, por exemplo, precisam ser desmitificados. Pressupomos que a liberdade, assim como o amor, a felicidade e outros sentimentos são necessariamente algo totalmente positivos, coisas boas; quando na verdade na vida tudo tem duas faces, penso eu. Sobre a servidão moderna não estou certo se de fato ela acontece voluntariamente, visto que muita gente não toma consciência por falta de um maior esclarecimento. Não fomos ensinados a pensar. O que acha?

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    1. Concordo que não somos educados a pensar, escrevi, inclusive, um texto sobre a educação no Brasil, publicarei em breve. A questão pra mim relaciona-se ao nosso comodismo, como disse Thoreau: "Um homem não pode fazer tudo, mas pode fazer algo. E não é porque não pode fazer tudo, que esse algo deve ser feito de qualquer maneira". Se todos fizéssemos algo, acredito que muitas coisas se modificariam. Todavia, até esse algo dá trabalho e aí preferimos ficar onde estamos.
      Abraços!

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  2. Este comentário foi removido pelo autor.

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    1. Recomentando, com ajustes:

      É aquele caso, Erick: "O escravo perfeito é aquele que se acha livre"! Ser verdadeiramente livre é, acredito, o maior fardo que alguém possa carregar. Apesar de quê, viver em sociedade não obriga o indivíduo a se entregar à lassidão.

      Somos nossos próprios faxineiros; mal necessitaríamos de médico se cultivássemos nosso próprio alimento e fizéssemos dele nossos remédios, como preconizou Hipócrates; só aprendemos e evoluímos de verdade praticando as coisas. Já que a humanidade é constantemente instada a ser comodista, alienada e dependente, obscurecida por tantas camadas de inutilidades, acontece com ela o mesmo que ocorreu com o poderoso javali: os fracos da espécie foram sendo domesticados a ponto de se gerarem o porco, cuja grande utilidade é engordar, procriar e servir de alimento.

      Eu opto pela recalcitrância. Posso lhe indicar meu blog?

      http://fab29-palavralivre.blogspot.com.br/

      Abraço.

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    2. Pois é. A liberdade traz um fardo enorme para o indivíduo, de modo que a maioria prefere ser escravo que ter as rédeas da própria vida. Não sou um pessimista, sou realista, mas tenho esperança que as poucas almas livres que possuímos possam ajudar na libertação dos demais.

      Abraços!

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