sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

Shakespeare e Psicanálise: MacBeth



MacBeth é uma das obras mais importantes de Shakespeare e para muitos a sua maior tragédia. De fato a obra reúne elementos suficientes para fazê-la uma grande tragédia. O jogo formado pelo poder, culpa, medo e teatralidade, tornam MacBeth um caldeirão de conflitos psicológicos e, portanto, digno de nossa atenção.

O tema principal da peça é a ambição sem limites; a desordem interna, a qual desfrutam MacBeth e sua esposa Lady MacBeth. Embora, general de prestígio perante o rei, MacBeth não contenta-se com a sua posição e alimenta dentro de si o desejo de ser rei. Com esse desejo latente em si, bastou que uma fagulha fosse lançada para que o seu desejo o apoderasse sem limites, buscando a qualquer custo a sua realização.

No entanto, para que isso acontecesse, o Rei Duncan deveria morrer, e, assim, MacBeth tratou de fazê-lo. Obviamente, esse assassinato não se deu de forma clara, mas como um infortúnio ao qual todos deveriam chorar, inclusive, MacBeth, demonstrando, desde então, a representação do eu que reside na obra.

A morte do rei, faz com que os caminhos se abram para aquilo que MacBeth almeja e, assim, confirmando a fagulha que lhe fora lançada, a qual dizia que ele seria rei. Fagulha que encontrou terreno pronto para formar uma grande chama; a chama do poder, a qual afastou o medo e colocou-o numa cegueira moral, pois
"Uma grande confiança na promessa poderia vos inflamar para chegar ao trono, mais que barão de Cawdor. Mas, é estranho; por vezes, para nos perdermos, contam-nos os agentes das trevas alguns fatos verídicos, seduzem-nos com coisas inocentes, porém de pouca monta, para nos arrastar a consequências incalculáveis."
A cegueira moral de MacBeth, assim, o torna rei, mas um reinado conseguido através de meios iníquos, os quais em nenhum momento foram questionados pelo general. Vestido em sua máscara até então, esperava que as pessoas daquele reino, o reconhecessem como um grande rei, revestido de qualidades, contudo, como um ator, não conseguia distinguir a ficção do real, isto é, se as pessoas o enalteciam como o grande MacBeth ou se o viam como um assassino, já que
"Não existe arte que ensine a ler no rosto as feições da alma."
A partir de então, a culpa que passa a fazer parte do protagonista, assim como de Lady MacBeth, o faz retomar a consciência, mas uma consciência manchada por sangue, que o faz entender que a vida não passa de uma vela, ou seja, um fogo muito frágil, de modo que qualquer simples sopro o apaga.

Desse modo, a chama que o levou ao poder que tanto desejava, facilmente poderia ser apagado, pois, assim como ele, os outros também possuem máscaras que podem esconder a cólera de destruí-lo. Essa tomada de consciência, faz MacBeth entender a fragilidade da sua condição, pois na vida não existe poder que traga tanta solidez, já que todos estão sujeito a insignificância do destino. Percebe também o quão ingênuo foi em acreditar que ao final da trama seria o protagonista.

A culpa de MacBeth proporciona-lhe um insight, que o faz tomar consciência do que é a vida. A culpa, mais que isso, o faz perceber que talvez tenha lhe faltado máscaras, as quais lhe impediria daquela culpa que sentia e que o fazia enlouquecer; máscaras que impedissem que 
"As consciências manchadas descarregam seus segredos nos surdos travesseiros."
Essa reflexão nos leva a pensar que na vida o sucesso está diretamente ligado a quantidade de personas que possuímos, pois quando possuímos uma única máscara, a qual está colada ao nosso rosto não conseguimos nos adaptar a situações que a vida nos exige, isto é, as máscaras, nessa ótica, podem ser vistas como uma espécie de seleção natural, em que, quanto maior o número de personagens maior é a adaptação.

Essa visão não corrobora com a minha (manifestada, inclusive em outros textos), mas de fato, existem situações que nos encurralam e quando não temos máscaras para nos proteger, parece que sofremos mais, pois o mundo é "agone", e por isso existe tanto conflito. É somente ao final da peça que MacBeth entende que naquela peça não será o protagonista, que assim como ele, todos exercem o seu papel e que
"A vida é apenas uma sombra ambulante, um pobre cômico que se empavona e agita por uma hora no palco, sem que seja, após, ouvido; é uma história contada por idiotas, cheia de fúria e muita barulheira, que nada significa."

6 comentários:

  1. Uma obra que faz muito bem par com a que acabei hoje de ler: Crime e Castigo, de Dostoievski. Ambas fundamentam o crime e em ambas a culpa e as consequências esmagam o criminoso

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    1. Muito bem lembrado, ele e Shakespeare formaram grande influência no pensamento de Freud e da psicanálise.
      Abraços!

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  2. "Não existe arte que ensine a ler no rosto as feições da alma."

    Ótimo texto Erik, abços

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  3. Gostei demais e já distingui MacBeth em muitas situações

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