sexta-feira, 4 de março de 2016

Petralhas x Coxinhas: O estado de ódio no Brasil pelos olhos de George Orwell



Milton Santos costumava dizer que – A força da alienação vem dessa fragilidade dos indivíduos, quando apenas conseguem identificar o que os separa e não o que os une”. Sendo assim, para aqueles que detêm o monopólio da força, na manutenção do poder, é indispensável que busquem alimentar a fragilidade levantada por Milton, de modo que torne o povo alienado e subserviente aos seus interesses.

Essa alienação é construída, no livro 1984 de Orwell, pelo “estado de ódio”, em que a sociedade é erigida sob pilares contrários à paz, fazendo com que os indivíduos sejam influenciados a viverem em constante ódio e medo. Há uma série de atividades ligadas ao ódio, como os dois minutos de ódio, executados diariamente e a semana do ódio. Nessas ocasiões, de forma automatizada e repetitiva os indivíduos são impelidos pelo Partido a exprimirem seu ódio pelos inimigos deste. O próprio protagonista da história, Winston Smith, que é contrário às ideias do Partido, em dada situação dos dois minutos do ódio, se vê gritando de forma inflamada contra os opositores do Partido, comportando-se de acordo com a massa ou como ele diz – “[...] fazer o que todo mundo fazia, era uma reação instintiva”.

Desse modo, através da ingerência na vida das pessoas e da repetição das suas artimanhas políticas, o Partido, em 1984, tornava as pessoas facilmente alienadas ao seu discurso. Esse recurso é o mesmo utilizado no Admirável Mundo Novo de Huxley, em que por meio da repetição, as pessoas internalizam as ideias que lhes são passadas como verdades, afinal – “Sessenta e duas mil repetições formam uma verdade”.

Ao submeterem os indivíduos ao estado de ódio (ou estes se deixarem submeter), o Partido consegue fazer com que estes esgotem suas energias com o discurso alienante, de maneira que não consigam ter energia e tempo para perceber as correntes que os prendem. Assim, o Partido se mantém no poder com uma oposição muito débil, que pouco pode fazer para mudar a situação estabelecida.

O cenário político brasileiro atual comporta-se do mesmo modo que o Partido em 1984. Alimenta-se o ódio por qualquer posição contrária a suas “ideologias”, fazendo com que haja uma ruptura dualista entre “petralhas” e “coxinhas”. Basta qualquer manifestação de pensamento para que as brigas comecem e tomem horas a fio, sobretudo, no Facebook. Até mesmo, declarações sem cunho político-partidário geram declarações que apenas confirmam que vivemos no estado de ódio da distopia de Orwell.

Sem nos darmos conta (ou sem querer nos darmos) estabelecemos um maniqueísmo, fragmentando o povo entre bem e mal, sendo que o discurso que alimenta esse ódio é produzido tão somente por demônios, de tal forma que escolher um lado e defendê-lo como o lado do “bem” é no mínimo ingenuidade, para não dizer mau-caratismo mesmo. Enquanto o povo se divide, nessa guerra de ódio, os partidos revezam-se no poder, com pouquíssima mudança de ideologia e sem qualquer pensamento que privilegie a probidade e o bem comum.

Essa fragilidade nos laços que mantêm coesos o tecido social é essencial para que a classe política imunda que o Brasil possui continue no poder, uma vez que como diz O’Brien, membro do Partido interno, a Winston – “O poder está em se despedaçar os cérebros humanos e tornar a juntá-los da forma que se entender”. Assim, ao darmos vazão para o discurso da classe política como um todo, estamos nos fragilizando enquanto povo e permitindo que a classe política despedace o nosso poder de crítica.

Para o Partido, no livro, ou para a classe política brasileira, seja situação ou oposição, de direita ou de esquerda (se isso quer dizer ainda alguma coisa), o poder se dá pela construção de – “Um mundo de medo, traição e tormento, um mundo de pisar ou ser pisado, um mundo que se tornará cada vez mais impiedoso, à medida que se refina”. Dessa forma, devemos reconsiderar o modo como facilmente nos ludibriamos e, como disse Milton, nos tornamos cegos que apenas identificam as diferenças que nos formam e esquecem que a soberania é popular, mas, se o povo está se digladiando em uma guerra de ódio, o poder passa a ser daqueles que conseguem fazer desse ódio a fonte da sua vitória.

16 comentários:

  1. Excelente Erik, como sempre! Um abração pra ti!

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  2. Parabéns pelo texto Erick, incrível descrição da politica atual brasileira.

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    1. Obrigado Ana, eu tento me manter lúcido, rs.

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  4. Olá amigo, gostei do texto. Já li os livros 1984 e Revolução dos Bichos. Acho que você pode aprofundar mais sua análise na distopia entre coxinhas x petralhas. Existe sim diferenças entre projetos diferentes de governos a partir da tradição histórico cultural brasileira, do modus operandi tupiniquim e ambos os lados podem ser uma ditadura num futuro bizarro (como nos dois livros citados). Mas não são de forma alguma o mesmo projeto e não podemos nos enganar que batata e repolho são a mesma coisa. Enfim, só dando um blábláblá na discussão. Forte abraço,

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    1. Obrigado! Fico feliz que tenha gostado e entendo a sua crítica, que aliás é o que de fato precisamos, discutir as divergências de forma elegante e respeitosa. Existe sim modelos diferentes, contudo, ao meu ver, na prática esses modelos acabam fluindo na mesma direção, uma vez que a única coisa que perseguem é a perpetuação no poder e não a construção de um modelo político que possibilite ao Brasil desenvolver-se e ser o que de fato esperamos que ele seja. Enfim, no fim das contas, a batata e o repolho acabam se misturando e o sabor se torna o mesmo, amargo e intragável.
      Abraços!

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    2. Verdade, Erik, grande verdade isso de vermos que os instrumentos de poder que os ineptos e líderes irresponsáveis buscam dizer ao povo para manipulá-los, no final é igual ao repolho e a batata, só muda o lugar ou o momento. Tanto é verdade que a metáfora de George Orwell busca mostrar na sua famosa Guerra dos Bichos, o que "poderia" acontecer até com os animais. Também no seu 1984, busca explicar todas as circunstâncias em que podemos perceber esta manipulação do povo pelo "grande irmão" ou poderosos , principalmente pela propaganda e a fácil linguagem. Seja com Hitler, com os "Fideis Castros" da América Latina ou na Itália de Mussolini, enfim, em qualquer lugar. Obviamente onde o povo é despreparado, sem escolaridade, como vemos agora no Brasil. Em uma Europa de hoje ou nos outros países desenvolvidos, a coisa muda de figura, né? Pode haver tentativas, mas nunca o sucesso de lideranças despreparadas chegarem ao poder. Mas acho que nossas escolas assim, talvez em 200 anos chegaremos ao patamar da Europa.

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    3. O pior de tudo meu caro é que não percebo um clamor social pela educação transformadora, mas sim a que nos oferecem e que no fim das contas só serve para formar mais e mais servos voluntários do sistema.
      Abraços!

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  5. Como dizer que batata e repolho não são a mesma coisa. Ambos são alimentos, e como diz o texto: são alheios à probidade e o bem comum. O que muda é apenas o gosto, e como cada um tem o seu, seguimos preocupados apenas com o próprio prato.

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    1. Olá Guilherme! Entendi o posicionamento do nosso amigo, mas concordo com você, no fim das contas, batata e repolho se tornam a mesma coisa.
      Abraços!

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