sexta-feira, 5 de agosto de 2016

Pokémon GO Segundo Nietzsche, Huxley e Bradbury



No século XIX Nietzsche anunciou a morte de Deus, colocando, portanto, fim a um modelo de vida que pudesse ser estruturada por uma via religiosa. A bem da verdade, a dupla revolução burguesa do século dezoito, a saber, Revolução Francesa e Industrial, já havia derrubado os resquícios da sociedade feudal. No entanto, coube a Nietzsche dar o golpe de misericórdia, sendo que este não somente definhou aquela estrutura de pensamento, como também colocou em xeque o próprio modelo racional de perceber o mundo, que vivia com os positivistas o seu auge.

O sonhado progresso previsto pelos positivistas e todos entusiastas da modernidade não aconteceu, pelo menos não em um sentido que promovesse a evolução social de forma diretamente proporcional ao desenvolvimento tecnológico, isto é, proporcional às condições materiais. Sendo assim, a solidez dessa modernidade foi paulatinamente encontrando seu ponto de fusão e se liquefazendo, implicando, consequentemente, a confirmação do prenúncio de Nietzsche, no qual teríamos um futuro em que nem a religião, nem a razão seriam capazes de dar uma sustentação sólida à existência humana.

Posto isso, chegamos ao período pós-moderno ou a modernidade líquida como prefere Bauman, em que encontramos um mundo sem referências sólidas, no qual vivemos sem algo que proporcione sentido a nossas vidas. Nesse mundo do absurdo que não possui grandes propósitos, para lembrar Beckett, os indivíduos sentem-se desconfortáveis diante de uma liberdade infinita que caminha para o nada, já que, segundo Nietzsche, os homens sentem enorme dificuldade em viver sem ter algo em que possam apoiar a sua existência, o que ele chamava de muletas existenciais.

Percebendo a problemática e indivíduos desesperados por algo que possa proporcionar algum sentido a suas vidas, o mercado criou uma solução: a sociedade de consumo. O consumismo, assim, se tornou a grande base de sustentação existencial e os shoppings os templos de adoração de um novo fundamentalismo. Como a sustentação proporcionada através de coisas é frágil, novas coisas sempre devem ser criadas, a fim de manter os fiéis cativos aos templos de adoração, muito embora, a mídia não se esqueça da sua função catequizadora.

Nesse processo, encontra-se o Pokémon GO, mais uma ferramenta criada pelo mercado para manter acesa a fé das ovelhas. Obviamente, a ferramenta trata-se (ou deveria tratar) apenas de um jogo, uma forma de lazer. Entretanto, o modo desesperador como muitas pessoas ao redor do globo têm se relacionado com algo que é “apenas um jogo”, confirma a insustentabilidade da nossa existência e os meios frágeis que temos buscado para empreender um sentido a ela por meio dos artifícios da sociedade contemporânea, assim como, problemas típicos do nosso tempo como a solidão e o isolamento.

Esse comportamento leva ainda a outros questionamentos, como a questão do tempo, afinal, nós vivemos na era da correria em que ninguém possui tempo para nada, tampouco, para alguém. Como pode haver, então, tanto tempo disponível para se dedicar a um jogo? No mínimo paradoxal. Para Aldous Huxley, esse paradoxo é explicado pela própria estrutura do Admirável Mundo Novo, ou seja, os mecanismos criados dentro da sociedade têm como função elementar a massificação dos indivíduos, tornando o controle social mais fácil, posto a transformação da humanidade em uma grande manada.

Dessa maneira, há a necessidade de um gozo perene, o qual, em uma sociedade sem referências, passou a ser encontrado, como já dito, na sociedade de consumo. Nela, a fragilidade existencial passa a ser “fortificada” por meio da padronização, da adequação, da alienação e, quando isso não for suficiente, há ainda o “soma” que resolve todos os problemas, como o Pokémon GO, que além de proporcionar estabilidade emocional, ainda pode tornar o indivíduo alheio ao que acontece.

Essa fuga de uma realidade não querida é ressaltada também por Ray Bradbury e seus mundos distópicos, como Fahrenheit 451 e O Homem Ilustrado, em que uma série de artifícios, como televisões “interativas”, “superdesportos”, “parques de destruição”, etc., é criada para acalmar os espíritos e eliminar o desejo de pensar. Em outras palavras, instrumentos que acabam se tornando a finalidade de vidas totalmente automatizadas e sem qualquer senso crítico.

Enquanto ferramenta, não existe problema algum com o jogo, a questão se direciona ao modo como nós temos nos comportado. Ou seja, a forma como nós temos transformado instrumentos em finalidade e coisas no sentido de vidas. A forma como estamos cada vez mais dependentes do mundo virtual e alheios ao que acontece na vida real, buscando sempre fugir da dor da existência e das problemáticas relacionadas a ela. Mais uma vez, não há problema em si com o jogo ou com quem venha a jogá-lo, e sim ao modo como temos nos relacionado com coisas, como se fôssemos zumbis a procura de alimento.

Em um contexto líquido como o nosso, de falta de referências e fragilidade dos laços humanos, é necessário reavaliar de que modo temos através desse modus vivendi conseguido melhorar as nossas vidas e o quanto essa barafunda tecnológica-consumista tem nos permitido ter acesso de fato ao mundo. Sei que com todas as ressalvas ainda haverá a possibilidade da não associação do “fenômeno” Pokémon GO com o nosso contexto social, de tal maneira que só me resta lembrar Orwell e a transfiguração da realidade pela linguagem, em que “Guerra é Paz”, “Escravidão é Liberdade” e “Pokémon GO é Vida”, mesmo que seja em bolhas chamadas a partir de agora de pokebolas. 

35 comentários:

  1. A vida está real está cada vez mais parecida com as obras de Huxley, temos que nos atentar, especialmente a novilíngua. Eu li todos os livros citados e foi uma delicia ler um texto tão coeso e bem argumentado, parabéns, continue!

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    1. Não vou comentar, pois você já comentou o que eu ia comentar.

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    2. Muito obrigado Daiza e Bernardo! Pois é, pena é que poucas pessoas se atentam para esse processo de servidão voluntária.
      Abraços!

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    3. Novilíngua é um conceito de Orwell, e não de Huxley.

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    4. Obrigado por esclarecer! Acredito que ela apenas se confundiu ao escrever, embora, já me sinta satisfeito por ela saber o conceito, sendo ele de Huxley ou Orwell.
      Abraços!

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  2. E eu penso que isso tudo é só o começo............

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  3. Bom texto, conciso. Ainda complementaria que devido ao processo de racionalização da via (Weber) assim coloca, a razão instrumental, inspirada na emancipação Kantiana e exaltada pelos iluministas, contribuiu como Adorno e Horkheimer constam, uma "jaula de ferro", em virtude de um processo de mundialização da informação e eletrônica. Temos diversos autores que contribuem com essa perspectiva trazida a luz no texto.

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  4. Olha, até entendo as comparações. Mas considerando a gama dos autores citados, é no mínimo, uma apropriação indevida de conceitos. Considere o tempo de cada autor, suas teorias e a aplicabilidade. Simplesmente fazer um recorte de uma parte do texto e colar na realidade atual é uma conduta reducionista, em minha humilde opinião.

    Quanto ao jogo, é só um jogo. Existe outro reducionismo em acreditar que a demonização de mecanismos culturais e sociais fará com que as pessoas os deixem e partam para "algo mais profundo". É como pensar que alguém que pare de jogar isto (ou assistir novela, ou ir na Igreja) automaticamente vai "encontrar" a verdade, escutar a música clássica, ler os poetas e filósofos....enfim, viver de forma contemplativa a eudaimonia grega....

    ...Simples, não vai rolar. Claro que podemos (e devemos) refletir nossa realidade através do que foi dito pelos inúmeros pensadores. Mas é uma alienação tal qual a novela das 8, acreditar que tudo que eles disseram está correto. Lembrem-se, nenhum pensador resolver os problemas de sua própria sociedade e tempo, nem dos mais pequenos aos mais complexos.

    Quanto ao jogo, deixe jogar. Qualquer construção de cultura e interação salutar entre humanos que possa vir disso será lucrativa para a sociedade.

    Posicionar-se como pseudo-intelectual nessas horas é piegas e completamente sem sentido. Esperam o que? Que todos fiquem em suas casas, lendo desesperadamente algum pensador alemão, enquanto ouvem Bach e pensam em como a existência é irrelevante?

    Ou ainda, em como seria mais útil largarem o jogue e irem para encontros de leitura de livros, saraus e etc?

    Fazer algo não exclui outra coisa. Críticas vazias tampouco ajudam.
    Se queremos mudar, façamos as pessoas refletirem....não aquelas que buscam textos como estes, mas conversando com pessoas que nunca procurariam textos como estes.....essas pessoas sim poderiam usar de mais cultura para ressignificarem as próprias vidas.

    Enfim, apenas opinião.

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    1. Ainda bem que é apenas a sua opinião, porque não me posiciono como pseudo-intelectual, nem intelectual, sequer tenho formação técnica ou frequento a academia. Minha formação é livre e não tem como pretensão catequizar ninguém, apenas escrevo o que acho que devo e quero escrever e algumas pessoas leem, umas gostam, outras não, e, assim, a vida segue seu rumo. Sei que não vou mudar o mundo, bem como, nenhum pensador em seu tempo mudou a sua realidade completamente. Contudo, sei que eles fizeram e fazem pessoas, como eu, ter maior senso crítico e maior capacidade de perceber o que me cerca, de tal maneira que, se conseguir fazer isso com uma pessoa sequer, já me dou por satisfeito. Em momento algum meus textos são deterministas, deixo o caminho livre para cada um pensar por si mesmo e criar o seu conhecimento e pelo retorno que tenho tido, estou bem satisfeito. Pelo que vi, você sim faz pré-julgamentos, uma vez que sequer me conhece e faz disparates contra mim. Você sabe se eu não converso com pessoas, sejam elas, mais ou menos instruídas, sobre as problemáticas que escrevo? Bom, não vou me estender, porque já percebi o quão superficial és tu, que se esconde atrás de um "Anônimo" para ofender outras pessoas, isso sim é fazer uma crítica vazia amigo.
      Passar bem com a sua pseudo-educação!

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    2. Não sou o cara que escreveu acima, mais vejo que você não sabe receber críticas, aliás, não sabe debater civilizadamente. Não vejo desrespeito contigo. Disparates? O debate é a chave de tudo, não o problema. Acho que deveria, sim, receber críticas, sobretudo, para liquefazer suas concepções de ignorância, em seu termo Marxista é claro.

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    3. Caro "Anônimo", por mais diga o contrário, você continuará achando que eu sou o "ignorante" e descivilizado, uma vez que pressuponho que tenha lido os comentários. Sendo assim, não preciso repetir o que já disse e como o ambiente é democrático não vejo problema em você me enxergar da forma como descreveu, ainda que eu saiba não ser verdade.
      Ademais, só uma curiosidade: há problema em pensar uma problemática sob um prisma marxista?
      Abraços!

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    4. Caro Erick Morais, parabenizo a tua reflexão, mas me desculpe... o melhor deste texto, foi o comentário deste 'anônimo' a quem tu atacou.

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    5. Claro que pode, mais você intão- que é um dito conhecedor das problemáticas sociais- acha benéfica a ignorância trassada pelo marxismo? Me poupe amigo, não é só porque você escreve em meia duzia de sites colaborativos que você é um intelectual, muitos de você estão no mundo, não tirando minha parcela desse público, só não é aceitável o modo de tratamento atribuida aos seus leitores. Leio todos suas postagens, sim! Afinal, ninguem torna-se um relativo conhecedor massageando ego e lendo apenas coisas aceitáveis do seu ponto de vista.Logo, leio para adquirir conhecimento é não para ficar ''famosinho'' na rede e desbancar os esquerdistas segundo sua concepção - e oque me parece é que você não passa de um alienado que escreve na rede apenas para ser reconhecido. Também não tenho medo de tapa na cara não, se é que posso dizer esse termo, se quiser falar comigo efetivamente meu face é Matheus Shekler no face. Abraço.

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    6. Meu caro, você não me conhece, então, o que você diz sequer possui fundamento, bem como, não tem a menor importância, uma vez que você em momento algum propôs uma base de questionamento. Você está tão somente preocupado em atacar uma pessoa que não conhece, o que me parece uma tentativa desesperada de satisfazer algum problema. Não há necessidade de falar com você pelo Facebook, nem por qualquer outro local, já que da sua parte não existe qualquer interesse por uma discussão saudável. Ser marxista ou ser conservador não é ignorância Matheus, ignorância é segregar pensamentos e querer julgar alguém por intolerância própria. Sendo "famosinho" ou não, o que recebo de retorno das pessoas é o suficiente, inclusive, as críticas bem colocadas e fundamentadas que recebo, as quais proporcionam grandes discussões e me fazem crescer intelectualmente, o que, obviamente, não vai acontecer com discussões via Facebook com alguém intolerante.

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    7. Você mesmo se contradiz, uma hora fala que não me conhece e depois fala que eu sou intolerante ? Mais ok. Por mim tá de boa, não to querendo atacar ninguem, se fez parecer isso, me desculpe, só coloquei o meu ponto de vista. Não vou ficar discutindo coisas desagredadoras. Passar bem =)

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  5. Só acredito que Nietzsche não "deu golpe de misericórdia", apenas constatou um movimento irreversível!

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    1. Verdade Micael, coloquei a expressão justamente nesse sentido, para enfatizar que a estrutura já estava derrubada, ele apenas fez a constatação. De qualquer forma, é bom esclarecer.
      Abraços!

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  6. “... não há problema em si com o jogo ou com quem venha a jogá-lo, e sim ao modo como temos nos relacionado com coisas, como se fôssemos zumbis a procura de alimento”.

    Sim, o problema não é o jogo em si. O jogo é só mais um exemplo da forma como estamos, a cada dia, adotando mais e mais hábitos “da moda” sem ao menos nos sentir incomodado com a maneira como aquilo que ocupa nosso tempo e, presumidamente, nos traz satisfação, tenha que vir prontinho de uma fábrica de produção em massa.

    Pior é ainda existir pessoas que acham que “é só um joguinho”. Nada é só um... - seja lá o que for. Ótimo texto, parabéns!

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    1. Muito obrigado Renato! É bom saber que há mais gente na superfície.
      Abraços!

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  7. Erick, você é genial! Parabéns pelas tão bem colocadas teorias e fundamentos de pensadores incríveis, tal qual Nietzsche. Lamentavelmente vivemos numa época onde o caos social, político e humanitário, muito contudente no nosso país, mas também existente no mundo, impera. Evoé!

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    1. Muito obrigado Alexandra, gentileza sua! Infelizmente, mas resistamos.
      Abraços!

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  8. (Novo anônimo)
    Na boa, Pokemon GO representa muito mais no âmbito tecnológico e do modo de jogo e interação do que qualquer mudança nas relações sociais das pessoas.
    Para quem já jogava jogos online, principalmente os MMORPG, sabe que o que está acontecendo é simplesmente sair do mundo estritamente virtual para a interação com o real. Esse é o sucesso de Pokemon GO, aliado à história do que já foi/era/é um sucesso conhecido de várias gerações (pokemon).

    Com relação ao filosófico do texto, ao meu ver as idéias de Huxley têm se aproximado mais da realidade que vivemos do que as de Orwell (ainda não tive a oportunidade de ler Bradbury, mas está na lista).

    O condicionamento existe em nossa sociedade, só não é mais precoce, como no Admirável Mundo Novo, por falta de tecnologia. O ser humano precisa de lazer, de distração e irá encontrá-lo nas mais diversas formas: em livros, na música, nas diferentes formas de arte e, inclusive, em jogos. Sejam jogos no sentido de esportes, seja com os virtuais.

    A alienação não depende necessariamente do que a pessoa faz, se joga ou não. Existem alienados que não jogam, e também pessoas que jogam e não são alienadas. Irá depender de cada um.

    No mais, mundo real e mundo virtual estão se unindo. Essa separação está acabando e o mundo que entendemos como virtual não passa de uma extensão do mundo real. O mundo virtual é real também, é formado por pessoas e, do mesmo modo, possui belezas e falhas.

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    1. Olá Novo Anônimo! Antes de mais nada, obrigado pelo comentário, agregador, crítico e respeitoso. Todas as críticas são bem-vindas quando bem colocadas. Concordo com você em relação à Huxley, inclusive, por este ter um acerto maior nas suas críticas e prognósticos, considero "Admirável Mundo Novo" uma obra melhor que "1984", ainda que esta seja fenomenal também. Leia Bradbury traz uma perspectiva parecida com a de Huxley, mas com algumas peculiaridades. Enfim, são obras maravilhosas e, na minha opinião, imprescindíveis para quem se interessa pela compreensão do mundo contemporâneo.
      Também concordo com você em relação ao mundo virtual. Este é uma extensão do mundo real, de modo que os problemas que se estabelecem hoje não são originários propriamente dos aparatos tecnológicos, mas sim da forma como nós os utilizamos. Obviamente é uma questão complexa, mas considero que poderíamos ter uma relação com a tecnologia diferente, na qual o elemento humano fosse favorecido, e não relações que nos escravizam e nos desumanizam de diferentes formas. Mas, repito: o problema está no "modo de usar" e, portanto, no homem, seja quando desenvolve a tecnologia, seja quando a utiliza e nesse sentido, as obras supracitadas nos ajudam a perceber essas problemáticas.
      Mais uma vez obrigado! Abraços!

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    2. (Novo Anônimo)
      Não conhecia o blog, já adicionei aos meu favoritos. Trata de temas que tenho interesse, nessa análise de mundos distópicos que nos fazem pensar sobre o quão longe nossa realidade está dessas ficções...

      Sem dúvidas, o "modo de usar" é o ponto frágil, não só com relação à tecnologia, mas em tudo com que o ser humano se relaciona!

      Parabéns pelo blog.

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    3. Olá! Muito obrigado! Sinta-se à vontade!
      Concordo com você.
      Abraços!

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