segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Em terra de egos quem vê o outro é rei



Saramago já dizia: “É dessa massa que nós somos feitos, metade de indiferença e metade de ruindade”. Embora, seja dura a observação do português, devemos considerar que, de fato, temos vivido de modo a fazer jus ao pensamento dele. A cegueira, que nos dominou nesta quadra da história, nos transformou em tiranos de nós mesmos, como se houvéssemos perdido a capacidade de perceber o que nos circunda, o mundo, os outros, e, muitas vezes, até nossa individualidade verdadeiramente.

Fomos dominados pela ditadura do ego, a qual não permite a conjugação dos verbos no plural. Sendo assim, existe apenas o eu, e, ainda, de forma superficial, uma vez que para que possamos compreender as nossas tormentas é preciso perceber que no mar bravo existem outros barcos além do nosso. Não há, dessa forma, a percepção da humanidade que nos forma, isto é, a nós e aos outros, de modo que o outro se torna indigno da nossa visão, tornando-se invisível diante da nossa cegueira egoísta.

Dessa maneira, não conseguimos perceber/enxergar que, assim como nós, o outro também chora, sofre, sente a dureza da vida, precisa de um afago, de alguém que o escute e se esforce para compreendê-lo. Ou seja, que o outro também precisa de alguém que seja capaz de desvestir-se do próprio ego para mostrar a sua nudez, a sua fraqueza e, por conseguinte, demonstre que ainda há ouvidos dispostos a escutar e olhos lacrimejados incessantes por mais lágrimas.

Ao adequar-nos a uma sociedade sustentada no individualismo e no egoísmo, passamos a estar doentes, a nos tornar estranhos perambulando em labirintos. Passamos a cegar e, acima de tudo, passamos a tornar a vida um lugar ainda mais inóspito, um lugar mais duro, mais seco, no qual não se brota amor, já que para que este nasça é imprescindível a presença da divindade que só existe no pequeno espaço colocado entre duas almas que procuram incessantemente a conexão através do toque das palavras.

Calamos as palavras na medida em que escolhemos não enxergar o interlocutor. Palavras ditas para sombras só conhecem o eco melodicamente fugaz de palavras não ditas. Tornamos a alma muda, amedrontada e carente de ouvir, de ter atrito, de ter mais cores vindas de outros potes.

Estamos perdidos em um sonho ridículo. Perdidos em vidas vazias e solitárias. Perdidos dentro dos muros que construímos. Perdidos em nossas depressões, em nossas frustrações, em nossas ansiedades. Perdidos na solidão, embaixo do chuveiro enquanto a água cai estilhaçando o nosso corpo. Enquanto procuramos nos livrar por meio das lágrimas do imenso vazio egoísta que nos enfraquece. Enquanto procuramos nos livrar das dores silenciosas e do martírio oculto da nossa ruindade.

A vida sempre será dolorosa e a terra dura, mas não podemos viver escravizados por nossos egos, nos achando sempre autossuficientes, sentados em cima do próprio umbigo. Viver é muito mais do que isso, é poder ter a riqueza de construir pontes que ligam pessoas e tecer palavras poéticas que comunicam almas. É ter fome de amar, de abraçar, de ouvir. É reconhecer a fome no outro mesmo quando a barriga está cheia. É ir além da massa de ruindade e egoísmo que ruge forte em nós.

É nunca cegar ou nunca permitir que essa cegueira se instale e retire o que há de mais belo no mundo: o olhar profundo entre duas pessoas sintetizando a essência do que é divino, pois lembrando outra vez Saramago – “Se podes olhar, ver. Se podes ver, repara” – porque cabe a cada um de nós a responsabilidade de ter olhos quando os outros os perderam e como disse certo poeta meu camarada: “Em terra de egos quem vê o outro é rei”


PS: o poeta em questão é Tokinho Carvalho da página "Datilografia Poética".

14 comentários:

  1. Excelente texto Querido Erick, parabéns !

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  2. Um texto sincero, esclarecedor e com uma proposta de que olhemos para nós mesmos, urgentemente, agora. Não podemos perder tempo e deixar-nos perder de nós mesmos, da nossa humana humanidade, embora talvez só nos caiba a luta inglória contra nosso caráter indiferente e nossa marca de ruindade.

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  3. Belo texto Erick, ficou lindo parabéns, parece até letra de música com pitadas de singelesas. Obrigada por compartilhar com a gente.

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  4. Este comentário foi removido por um administrador do blog.

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  5. Erick, li seu texto através do face, e achei sensacional! A verdadeira tônica do que vivemos hoje. Com os olhos materiais ñ conseguimos enxergar a verdade das almas que nos cercam, nos esquecendo que todos somos feitos da mesma energia e essência. Sem querer ser clichê, mas já sendo, "mais amor por favor". Mais uma vez, parabéns! 👏🏼😉

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    1. Obrigado Tati! Estamos precisando desse clichê.
      Abraços!

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  6. Perfeito texto. Refletem profundos sentimentos. Pois na sociedade que vivemos a compaixão e empatia são raras e nem mesmo mencionada.

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    1. Obrigado!

      Nós estamos com um espaço novo, então, confere lá para continuar acompanhando os textos: www.genialmentelouco.com.br
      Beijos!

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  8. Por um mero acaso deparei com os seus textos , os seu blog. Fenomenal, coerente, explicito e realista.
    Ganhou uma fã. parabéns

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