segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

Crise, Jeitinho Brasileiro e Solução: Thoreau analisando o Brasil


Momentos de crise são essenciais para que se possa repensar o modo de vida estabelecido, seja em qual campo for. Nós, brasileiros, atravessamos um momento de crise que supera a esfera econômica. E, como dito, são nesses momentos conturbados que novas formas de agir devem ser construídas. No entanto, preferimos adotar uma postura de extremo pessimismo, em que não há solução possível. Pior que isso, nos acomodamos em nossos lugares a espera de um “milagre”.

Culpar o Estado por tudo é inútil, pois a classe política advém da sociedade civil, e por isso ela é tão suja. Dito de outro modo, a sociedade civil está impregnada de corrupção e sujeira, logo, se a classe política é oriunda da sociedade civil, não consigo enxergar outro comportamento da classe política que não seja a corrupção. Logicamente, isso não justifica os atos criminosos daqueles que deveriam zelar pelo bem comum. Todavia, o jeitinho brasileiro faz com que em todas as esferas sociais haja corrupção.

Sendo assim, culpar tão somente os políticos pela sujeira do país é uma atitude no mínimo fácil para não dizer mal intencionada. Cada um de nós tem a sua parcela de culpa no todo, uns mais, outros menos, mas todos contribuímos para a crise que se alastra e, como disse, não é somente econômica, mas, antes de tudo, moral.

A moral, ao contrário do que se pensa, não se sustenta com coerção. Desse modo não adianta querer hipertrofiar o sistema jurídico, que por sinal já é hipertrofiado, com leis que pretendem controlar cada passo da vida civil do indivíduo. É preciso uma atitude moral, e a moral realizar-se na liberdade. Isto é, uma atitude moral é individual e livre, é aquilo que faço independente de ter alguém me olhando. É uma atitude que pertence ao próprio sujeito, portanto, não necessita de coerção estatal.

O grande problema é que nós brasileiros, de uma forma geral, fazemos julgamentos morais que apenas beneficiam o nosso próprio eu. Ou seja, buscamos apenas a realização dos nossos desejos, dos nossos apetites, do bem individual. Sequer, cogitamos a possibilidade de ter atitudes que visem o bem comum, a coletividade. Buscamos, unicamente, satisfazer o nosso conatus, como diria Hobbes ou a nossa vontade de potência, como diria Nietzsche.

Essas atitudes são tomadas de forma clara e com a consciência limpa. Quantas vezes já ouvimos alguém se gabar de passar a perna em outrem, como se fosse algo digno de condecoração conseguir alguma coisa sem esforço ou apoiando-se nos ombros de alguém. Essa construção moral brasileira, a qual vê como positiva ações que tirem ou pelo menos visem tirar vantagens sobre outra pessoa, é a raiz do mal que assola a nação e leva a crises, como a que atravessamos.

Como cada um vive na sua bolha individualista e egoísta, em que busca a oportunidade de se dar bem às custas dos outros, há uma inatividade muito grande em relação a possíveis mudanças, pois estas dependem da ação individual e aqui reside o problema. Quem está disposto a sair da zona de conforto do jeitinho brasileiro para agir de forma proba e honesta? Quem está disposto a abdicar do bem privado pelo bem comum? E não falo em abdicar da individualidade no sentido da subjetividade, pelo contrário, digo do egoísmo que faz com que vivamos sem olhar para o lado e que nos torna cegos morais, como bem atenta Thoreau:
“Depois do primeiro rubor do pecado vem a indiferença, e, de imoral, ela passa a ser, digamos, amoral, e não inteiramente desnecessária à vida que levamos.”

Todos nós somos capazes de tomar atitudes que condizem com o país justo e melhor que tanto se ouve falar. A mudança começa da esfera menor para a esfera maior. Discutir o mérito da causa não resolve o problema. É preciso arregaçar as mangas e ter coragem de viver aquilo que hipocritamente se prega. Se quisermos um país melhor, devemos contribuir para um país melhor. Não importa se a ajuda que podemos oferecer é ínfima se comparado ao que os governantes poderiam fazer. O importante é que cada indivíduo reveja os seus atos, para que não se pegue contribuindo para o mal que condenamos.

Iniciar essa mudança é extremamente difícil, reconheço, mas todos os inícios são dolorosos. Entretanto, a dificuldade e a limitação não devem ser empecilhos para que possamos contribuir para uma mudança nas estruturas do país.
“Pois não importa quão limitado possa parecer o começo: aquilo que é bem feito uma vez está feito para sempre.”

Desse modo, ainda que uma única pessoa, você leitor, contribua de forma isolada no seu meio social para uma nação que tenha como estandarte a justiça, essa ação produzirá efeitos, pois foram ações bem feitas, justas em si mesmas. Ninguém, sozinho, é capaz de revolucionar o mundo, mas todos nós somos capazes de contribuir com a revolução. Uma revolução que torne o mundo um lugar melhor para convivermos. Uma revolução que começa no interior de cada homem, como uma estrela no meio do universo, que, embora simples, tem brilho próprio, pois

“Um homem não tem que fazer tudo, mas algo, e não é porque não pode fazer tudo que precisa fazer este algo de maneira errada.”

6 comentários:

  1. Esse tique não é um exclusivo brasileiro, é uma herança lusitana. Por cá não é diferente, talvez por sermos uma povo de menor dimensão é que o efeitos de escala seja menos evidente globalmente

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    1. A corrupção atinge todas as sociedades, no entanto, no Brasil, ela se caracteriza por encontrar fatores que além de facilitar, influenciam na sua prática.

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    2. Muito bom o texto. Não concordo com Carlos Faria ao dizer, que a corrupção de lá é como cá. Coisa essa que os brasileiros até adoram dizer, pra fugir à responsabilidade histórica e mesmo pessoal. Vivi dez anos em Portugal e não vi nem dez por cento da corrupção que vejo a todo minuto ou em tudo que necessito fazer. Principalmente, a corrupção estatal. Uffffaa Ser brasileiro no Brasil não tá fácil. Além de sermos o quinto país do mundo em violência. E na leitura somos os últimos. Nosso povo parece não ter sensibilidade para as artes, principalmente para a leitura. Seremos assim, eternamente, o país do futuro.

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    3. Obrigado Borges! Concordo com você, somos facilmente controlados e isso acontece, sobretudo, pela nossa falta de sensibilidade às artes.

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