“Vivemos
num mundo confuso e confusamente percebido”, exclamou certa
feita o grande Milton Santos. Em um momento tão conturbado quanto o nosso,
nenhuma frase parece calhar melhor. Nessa confusão que se formou, informações
são distorcidas, leis são tolhidas e, sobretudo, o respeito ao próximo, ao
indivíduo com opiniões diferentes, foi destruído e substituído pelo ódio. Sendo
assim, o impeachment da presidenta Dilma e a derrocada do PT também são alvos
dessa confusão, de maneira que, decidi tecer algumas palavras sobre o tema.
O governo petista ao
assumir o governo federal em 2002 já tinha a estratégia pronta de como se
manter no poder, ou seja, o plano já estava pronto para ser executado e como a
hora havia chegado, cabia apenas colocá-lo em prática. Os petistas sabiam que
vivíamos na sociedade de consumo, em que o indivíduo existe tão somente na
medida em que consome, pelo menos é essa a mensagem que a mídia constrói e que
as pessoas voluntariamente aceitam. Além disso, sabiam que a sociedade
brasileira era extremamente desigual, cheia de discrepâncias sociais e,
portanto, excludente, uma vez que o sucesso segundo essa sociedade é medido
através do poder de compra do indivíduo.
Posto isso, o partido
dos trabalhadores buscou, por meio dos projetos sociais, promover a inclusão
social dos milhares de pessoas excluídos do hedonismo consumista. Desse modo,
os indivíduos antes invisíveis, puderam aos poucos criar corpo perante a
sociedade. Em outras palavras, na medida em que passaram a consumir, passaram a
existir. Obviamente, que esses programas retiraram e retiram milhares de
pessoas da miséria e deram alguma dignidade a pessoas que antes viviam em
condições desumanas. Entretanto, o cerne da questão é que o sucesso do PT e a
popularidade do ex-presidente Lula deveram-se a inclusão social a partir do
poder de compra das pessoas, isto é, do cogito “Consumo, logo existo”.
A avaliação positiva do
governo e a popularidade recorde do então presidente Lula estavam, assim, ligadas
diretamente ao aumento exponencial do poder de consumo das pessoas, que antes
se viam impossibilitadas de poder ter o “sucesso” proposto pelo mercado. Além
dos programas de distribuição direta de renda, houve também a implementação de
programas de incentivo ao ingresso nos cursos técnicos e nas faculdades, a fim
de proporcionar não apenas o aumento no grau de escolaridade do brasileiro, que
inegavelmente melhorou, mas, sobretudo, aumentar o poder de compra das pessoas
mais uma vez.
Ou seja, todas as medidas
tomadas pelo governo do PT se destinaram a proporcionar a inclusão social
através do consumo, já que as pessoas que compunham o partido sabiam que essa
era a lei do mercado e que a forma mais fácil de perpetuar-se no poder seria
por meio de medidas que coadunassem com a ordem estabelecida. Sendo mais claro,
o PT em momento algum pensou em melhorar e desenvolver o país, mas, tão somente
em se manter no poder, mesmo que isso custasse a sua ideologia e beneficiasse
setores da sociedade que só se preocupam com pessoas da sua classe social.
Desse modo, o PT
aproximou-se muito mais de uma ideologia de mercado que do pensamento de
esquerda, ao contrário do que muitos “inocentes” falam. Todos os mecanismos que
foram criados ou desenvolvidos tinham apenas o propósito de criar mais servos
voluntários do sistema, pois na medida em que um governo é avaliado somente
pelo critério econômico, isto é, pelo fato de eu ter ou não dinheiro no bolso,
o poder de crítica está deturpado ou não existe. Fico com a segunda opção e
mais uma vez o problema deve-se também ao PT, já que este teve a oportunidade
de tentar promover a inclusão social por meio da educação, mas não o fez. E não
o fez, pois era o caminho mais difícil de continuar a frente do governo
federal.
Seria necessário
investimento pesado e mais que isso, o desenvolvimento de uma educação crítica,
humanística, que permitisse ao indivíduo criar o seu próprio conhecimento e
desenvolver o seu senso crítico. Ao contrário disso, o PT preferiu investir em
um modelo tecnicista, em que a educação segue uma linha teleológica, de forma
que todo conhecimento deve servir necessariamente para ser aplicado em algo,
para construir alguma coisa, isto é, o conhecimento deve ser robotizado e
voltado apenas para o fim de ter bons funcionários executando a sua função na empresa,
sem poder questionador, tendo como recompensa o salário, para que nas horas
vagas possa comprar coisas para se divertir. Como a ideia do mercado (ratificada
pelo PT) é de que quanto mais coisas eu tenho, mais eu me divirto; mais
robotizado e tecnicista eu me permito ser para participar dessa “Disney World”
como dizia Baudrillard.
Inegavelmente houve
melhoras durante o governo petista e a ideia de promover a inclusão social era
e é necessária. Todavia, mais do que ter boas ideias, é preciso executá-las de
modo correto. Milhares de pessoas saíram da pobreza? Sim. Milhares de pessoas
que antes nem sonhavam, hoje estão nas faculdades? Sim. Então, fazer avaliações
extremamente negativas acerca do governo petista é falar com ódio, excluindo a
razão. Mas, nesse jogo não há ovelhas e, portanto, todas as críticas
supracitadas são verdadeiras e necessárias, pois o fato do PT ter acertado em
alguns pontos não o torna isento de criticas, bem como, os seus próprios
acertos devem ser questionados, como disse, uma vez que não devemos avaliar
apenas o fim, mas também os meios utilizados para que esses fins fossem
atingidos.
Assim sendo, o PT se
afastou das pautas de esquerda e não promoveu uma verdadeira e correta inclusão
social, através de uma educação humanística e crítica, que permitisse ao
individuo compreender o meio em que vive, a realidade “sui generis” do nosso
país e ter o discernimento necessário para não permitir ser ludibriado e
explorado por uma classe que enxerga o menos favorecido apenas como algo verdadeiramente
inferior e que deve ser dominado.
É sabido que não seria
fácil fazer isso e que talvez não obtivesse sucesso, pois, infelizmente a maior
parte das pessoas voluntariamente se deixa seduzir pelo mercado e dominar pelo
sistema, de modo que dificilmente teríamos um governo petista hoje. Entretanto,
se o partido dos trabalhadores fosse realmente um partido diferente, teria
tentado agir do modo que de fato iria mudar o Brasil e não somente criar zumbis
consumistas que não conseguem analisar outra coisa senão ter ou não limite no
cartão de crédito.
Por tudo isso, a
presidenta Dilma provavelmente sofrerá o impeachment e o PT será retirado do
seu posto. Pior, pelas mãos dos sanguessugas corruptos que o próprio partido
alimentou e com o clamor social de pessoas que aprenderam com o governo petista
que governo bom é medido tão somente pelo volume da carteira, seja ele de
esquerda, de direita, democrático ou ditatorial, pois na grande igreja do
capital consumista, só é permitida a entrada de quem tenha algum “sacrifício” a
oferecer.
Concordo e diria mais, no momento que o PT permitiu que boçais ouvintes de sertanojo, rapp, funk e outras imundícies tivessem poder aquisitivo para vomitar seus "gostos musicais" de forma violenta nos ouvidos da burguesia, ele gerou o ódio contra as massas inclusas e com isso alavancou os projetos dos abjetos "aristocrotos".
ResponderExcluirEm vez de dar educação civilidade e dignidade, o PT se limitou a dar trivialidade, futilidade e promiscuidade!
Não se dá o peixe, se ensina a pescar, não se dá o pão, se ensina a plantar e fazer o pão.
E agora teremos que agasalhar a sucia mais abjeta possível, encabeçada pelo xerife de santos, pastante pastor degenerado e o nariz de pó.
O melhor é sair dessa fossa!
que nojo do seu comentário!
ExcluirObservemos do modo mais imparcial possível o seu comentário: 1- "(...)o PT permitiu que boçais ouvintes de sertanojo, rapp, funk e outras imundícies tivessem poder aquisitivo para vomitar seus "gostos musicais". Amigo, muitíssimo antes do PT todos esses gêneros já faziam grande sucesso, além de serem incentivados e divulgados pela própria mídia dominante.
Excluir2. "[...] o PT se limitou a dar trivialidade, futilidade e promiscuidade". Veja bem: Contextualizar o que se diz, e observar o contexto em que as palavras são usadas pelos outros, é de grande ajuda na compreensão dos enunciados. Conceitos abstratos como trivialidade, futilidade e promiscuidade e outros de igual extensão de significado são constantemente provocadores de conflito, de confusão, que,, por não serem auto-explicativos, precisam de explicações adicionais. Como isso foi “distribuído” pelo PT? Exatamente a que vc se refere?
3."Não se dá o peixe, se ensina a pescar, não se dá o pão, se ensina a plantar e fazer o pão." Na verdade para quem está faminto não se ensina nada. Por essa razão a ideia seria mais eficaz, se o senhor houvesse escrito que se dá o peixe E se ensina a pescar, dá-se o pão, E se ensina a plantar e a fazer o pão. Sendo que o PT parou na primeira opção.
Exato Maria. Acredito que o nosso amigo tenha entendido a proposta do texto, embora tenha se descuidado com algumas colocações no comentário. Algumas palavras precisam estar bem colocadas e explicadas para evitar interpretações errôneas.
ExcluirImportantíssimo o texto de Erick e comentário de Rosa Maria.Porque assim,aprendemos a questionar e aprender um pouquinho de português, que é muito importante. O meu maior sonho era ver o projeto e a ética do PT sendo realizados em meu país, terra de tanta pobreza, tanto mental quanto material. Mas qual não foi meu espanto quando comecei a perceber o verdadeiro ideal(projeto) dos petistas!!! Simplesmente permanecer no poder, não dando as bases para uma educação eficiente e sem a mínima vontade de fazer as devidas reformas necessárias quando o "grande líder" tinha tudo, todo o poder pra fazer: Reforma política, tributária, educacional etc. etc. Meus sonhos foram morrendo... E qual não foi o espanto maior ao perceber que os sócios do PT não eram partidos ou políticos com ética, mas uma forte parceria com os mesmos políticos que o "PT-partido ético" denunciava como picaretas e corruptos da nação: Sarney's, Barbalho's, Renan's e Cunha's da nossa política!!!! Os mesmos que agora os levam ao cadafalso!!! Isso sem falar em Mensalão, Pasadena, Petrolão, etc etc... E para terminar, talvez a grande lição da trajetória PT é ter criado em jovens procuradores de justiça, na polícia federal e em um juiz idealista, a idealizada fundação da Operação Lavajato, a única que em 500 anos da nossa história, levou alguns ricos para a prisão, e não somente as secretárias e ladrões de galinha, como é o normal em nossa justiça. Apelo a todos os leitores que divulguem os fatos relevantes e a importância da Operação Lavajato para o bem do nosso país. Porque se ela sobreviveu até agora, foi em grande parte devido à pressão da mídia independente e da opinião pública.
ExcluirO que mais me assusta é saber que com o provável impeachment (acho muito difícil que não ocorra) o PT pagará a sua justa conta, mas os demais, tão corruptos quanto, ficarão impunes e não haverá bateção de panelas.
ExcluirAbraços!
Gostei muito deste artigo, divulga uma análise do problema diferente das repetitivas notícias veiculadas pelos media que ou são de uma fação ou da outra e se limitam a acusar o outro de corrupto sabendo-se que todos estão sujos.
ResponderExcluirObrigado Carlos! Infelizmente a nossa mídia é assim.
ExcluirÓtimo texto, Erick! Análise bem equilibrada e coerente. Parabéns!
ResponderExcluirMuito obrigado Maria!
ExcluirGrata por existir e por conseguir não apenas olhar e ver, mas também reparar, ir além das entrelinhas.
ResponderExcluirHá décadas eu me sinto entre a cruz e a espada neste País, porque ao mesmo tempo em que eu não estou de acordo com os que aí estão tomando conta do poder às custas dos enganados e usados consumistas da classe baixa, eu não aceito de jeito nenhum que eles sejam substituídos pelos sedentos de poder que serão mantidos aí pelos consumistas de classe média e alta. E, o que é pior, eu não vejo alternativa que nos dê ao menos esperança de que vá mudar esta maldita situação que nos faz cada dia mais escravaos e mantenedores cegos de uma sociedade doente.
As reformas para uma nação melhor infelizmente não ocorrerão e a culpa é do próprio povo, seja de classe baixa, seja de classe alta, que querem ser apenas consumistas desenfreados e avaliam a política segundo a sua fome pela grande maçã chamada mercado.
ExcluirPrezado, Erick Morais. Boa reflexão. Compartilho a minha contigo:
ResponderExcluirhttp://investigacao-filosofica.blogspot.com.br/2016/04/um-golpe-patologico.html#more
Obrigado Luiz! Conferirei.
ExcluirAbraços!