Curtir, compartilhar,
se conectar ao Wi-Fi, começar uma amizade, terminar uma amizade, descurtir. A
vida contemporânea inexoravelmente também se passa na rede, de modo que é
imprescindível para o entendimento do mundo que nos cerca a compreensão do que
significa uma vida ligada por uma rede wireless, assim como, de que modo esse
estilo de vida interfere nas relações interpessoais.
A despeito disso, o
sociólogo polonês Zygmunt Bauman nos oferece um manancial de conhecimento
através do seu olhar crítico e atento do mundo contemporâneo. Para ele, o
grande sucesso da vida “online” reside na facilidade de desconectar, isto é, de
fazer e se desfazer dos laços construídos sem o dispendioso trabalho que
possuímos na vida “off-line”. Dessa
maneira, as relações são pautadas pela extrema fluidez e velocidade, uma vez
que o grande atrativo da vida online é poder estar em constante movimento,
desfrutando livremente da tecla “delete” assim que uma relação acene com
possibilidades melhores.
Esse modelo de
relacionamento, portanto, parece ter como fonte principal de prazer o ato de se
desfazer das relações, já que o sucesso dos relacionamentos não é medido pela
profundidade, e sim pela sua capacidade rotativa que transforma tudo em uma
grande rede descartável.
“A alegria de livrar-se de algo, o ato de descartar e jogar no lixo, esta é a verdadeira paixão do nosso mundo.”
Sendo assim, qualquer
tempo investido em uma relação mais profunda e, sobretudo, fora de uma tela, é
tido como sinônimo de desperdício, afinal, com tantas opções, qual a razão para
estar preso em apenas algumas delas? A associação de tempo investido com
desperdício ganha contornos ainda piores ao analisarmos o contexto no qual
estamos inseridos, em que o tempo tornou-se um artigo de luxo e, portanto, o
“sucesso” do indivíduo está diretamente relacionado ao modo como abandona
antigas preferências e desliza com agilidade e leveza por novas.
“Fazer contato visual ou permitir a aproximação física de um outro ser humano é sinônimo de desperdício, pois equivale a dedicar algum tempo, escasso e precioso, a aproximação: decisão que poderia interromper ou impedir o surfe em tantas outra superfícies convidativas.”
Há de se considerar,
dessa forma, que no mundo online a quantidade exerce maior importância que a
qualidade, de tal maneira que se deve buscar a maior rotatividade possível, a
fim de contemplar um maior número de conexões. Para facilitar tantas conexões,
as relações devem ser ausentes de contradições e contrastes que tornam as
relações reais mais trabalhosas, levando, assim, a uma padronização das
relações e, consequentemente, das pessoas presentes nessas relações.
“A capacidade interativa da internet é feita sob medida para essa nova necessidade. É a quantidade das conexões, mais que sua qualidade, que faz a diferença entre as possibilidades de sucesso ou fracasso.”
Essa
padronização talvez seja o traço mais destrutivo do modelo de vida online que
levamos, já que há uma despersonalização do individuo, que é despido de suas
características próprias para que possa ser integrado pela grande rede. Em
outras palavras, ao seguir esse modelo, há uma automatização que transforma os
humanos em ciborgues e, pior, de forma espontânea e livre, posto que já estamos
biologicamente programados, como revela uma pesquisa, a qual diz que recebemos
um fluxo de dopamina (produto químico que negocia o prazer no cérebro) quando
ouvimos o aviso da caixa de entrada.
Entretanto, é
inocência pensar que a vida off-line esteja tão diferente, diria que esta está
englobada pela vida online ou no mínimo segue os seus ditames, ou seja, busca
fugir da dispendiosidade que relações verdadeiras possuem, bem como, do tempo
que é necessário ser investido nas mesmas. Nesse ponto reside o cerne da
questão, uma vez que uma relação verdadeira seja real ou virtual necessita de
tempo e da capacidade de o indivíduo estar aberto às dificuldades inerentes em
qualquer tipo de relacionamento. Apesar disso, não estamos dispostos a nos
esforçar tanto por uma relação, já que, como disse, existem milhares o tempo
inteiro acenando com possibilidades mais atraentes.
Essa grande rede
de conexões, no entanto, é apenas uma ideia ilusória, posto que ao estar
inserido em tantas relações, não há envolvimento com nada, de tal forma que o
indivíduo se encontra em um meio termo em que não se envolve verdadeiramente
com o que acontece com os amigos virtuais, mas também não está envolvido com o que
acontece nas relações reais, inclusive, pelo fato destas estarem cada vez mais
parecidas com as relações virtuais.
Obviamente, nem
todas as relações são pautadas da forma supracitada, bem como, não há problema
em usufruir a internet, afinal, esse texto chegará até você por meio dela.
Sendo assim, o problema está no modo como utilizamos essa ferramenta e como
temos aplicado o seu modus operandi na vida off-line, revelando ao mesmo tempo
uma solidão imensa que cria a necessidade de estar o tempo inteiro “conectado”
e a incapacidade/falta de vontade/preguiça de estar inserido profundamente em
uma relação que não seja equipada com a tecla “delete” e “antispam”, “[...] mecanismos que protegem das
consequências incômodas (e sobretudo dispendiosas em termos de tempo) das
interações mais profundas”.
Como dizia Millôr
Fernandes – “O importante é ter sem que
o ter te tenha”, de modo que ao estarmos inseridos na grande rede, é
preciso lembrar que a pessoa humana real precede e é mais importante que um
perfil em uma rede social. Mais que isso, é preciso lembrar que pessoas reais
não sorriem o tempo inteiro e não “seguem” as mesmas coisas que nós, de forma
que impreterivelmente haverá problemas que não poderão ser resolvidos com a
tecla “delete”, assim como, existem emoções e sentimentos que jamais poderão ser
sentidos através de uma tela, já que por mais que a internet tenha avançado,
nada substitui a conexão de dois corações em sintonia.
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